Lula deixa para Dilma a faixa e o fantasma da ‘griffe’

No benfazejo vaivém que marca o poder dos períodos não ditatoriais, o Brasil conviveu com três tipos de presidentes.

 Houve mandatários débeis. Houve os que fizeram governos, por assim dizer, normais. E houve os que cultuaram a personalidade.

Lula, o presidente que deixou o poder neste sábado (1º), pertence à categoria dos que levam ao verbete da enciclopédia a griffe da personalidade.

Quem faz a Presidência são os presidentes que a ocupam. Um dos termômetros para avaliar se o que fizeram foi visto como bom ou ruim é a forma como saem dela.

Lula entregou a faixa à sucessora Dilma Rousseff, desceu com ela a rampa do Planalto, cruzou a rua e, aos prantos, despediu-se da multidão.

Produziu-se uma cena que Brasília ainda não havia testemunhado. Dilma teve a delicadeza de permitir a Lula que degustasse o seu momomento.

Ladeada pelo vice Michel Temer, ela escalou a rampa. Foi dar posse aos seus ministros. E Lula saboreou sozinho a apoteose do descoroamento.

O signatário do blog misturou-se à aglomeração da Praça dos Três Podres. Testemunhou imagens de adoração hipnótica a Lula (foto no rodapé). 

Ele diz que vai “desencarnar”. Improvável. Ela afirma que dará continuidade à obra dele. Na administração, pode ser. No estilo, será impossível. Falta-lhe o carisma.

A Brasília que deu as boas-vindas a Dilma foi uma Capital encharcada. Primeiro, pelas águas da chuva. Segundo, pelo simbolismo.

A caminho do Congresso, Dilma foi privada do desfile em carro aberto. O aguaceiro a impediu de abrir a capota do Rolls-Royce.

Já no interior do prédio do Legislativo, foi empossada por José Sarney. Logo ele, um político cuja passagem pelo Planalto, de tão débil, pareceu mera transição.

Igual a Sarney, só Eurico Gaspar Dutra, cuja presidência transitória entremeou o Estado Novo e a volta do salvacionismo de Getúlio Vargas.

Na seleta platéia do Congresso, ouvidos grudados no discurso de posse de Dilma, estava Fernando Collor. Mais simbolismo.

Depois dos anos Jucelino Kubstichek, outro cultor da presidência de personalidade, o Brasil experimentara Jânio Quadros, versão burlesca da personalização do poder.

Collor frequenta os livros como evidência de que o Brasil não aprendera com Jânio a esquivar-se das farsas providenciais. Foi-se da renúncia ao impeachment.

Passada a tempestade cleptocrata de Collor, sobreveio a presidência normal de Itamar Franco. Uma normalidade que, envernizada pelo DNA do Real, assumiu ares de bonança inaudita.

Lula deixou para Dilma, além da faixa, o fantasma da personalidade insubstituível. O próprio Lula já havia convivido com experiência análoga.

Recebera o poder, também ele, das mãos de FHC, o presidente de personalidade poliglota e pluridiplomada.

Deu-se com Lula, porém, o inverso do que sucedera com o antecessor. O FHC do primeiro mandato carregou o troféu da vitória sobre a inflação.

O FHC do segundo ciclo, embora sonhasse em ser JK, assumiu as feições de outro presidente: Campos Sales, o homem do corte de despesas, que saiu sob vaias.

Lula fez um primeiro reinado economicamente austero, com superávits fiscais graúdos. No segundo, caprichou nos gastos sociais.

Quanto a Dilma, cultiva o sonho de, em quatro anos, combinar o aperto de Campos Sales com a derrama social de Lula. Impossível? Não. Mas difícil.

Em essência, a Presidência é como vinho. Ela tomará a forma do jarro que o eleitor eleger para abrigá-la.

Eleita graças à festa de Baco que Lula proporcionou ao naco da sociedade que não estava habituado à degustação de vinho, Dilma terá de dizer de que uva é feita.

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