Sarney apoia sigilo eterno de documentos históricos

A história é algo inventado por antigos historiadores, para oferecer aos historiadores contemporâneos a oportunidade de contar novas versões sobre velhas histórias.

Nacos do passado descem aos livros baseados na tradição oral, que por vezes escora-se no relato deturpado de quem viveu verdades que esqueceram de acontecer.

Nesse contexto, o manuseio de documentos antigos pode encurtar o caminho que separa o incompreensível do insabido.

Vem daí que corre no Congresso um projeto batizado com nome pomposo: “Lei Geral do Acesso à Informação”.

A proposta classifica os documentos produzidos por órgãos governamentais em três categorias: reservados, secretos e ultrassecretos.

Prevê um prazo para a liberação dos papéis à consulta pública: 5 anos, 15 anos e 50 anos. Permite a renovação do sigilo por igual período.

A coisa tramitava em regime de urgência. Súbito, bateu na mão de Fernando Collor, o ex-presidente cujo impeachment José Sarney considerou um “acidente histórico”.

Na semana passada, ao participar de almoço oferecido por Dilma Rousseff ao partido dele, o PTB, Collor alertou à presidente sobre a inconveniência da proposta.

Dilma mandou dizer que vai retirar o caráter de urgência que o Executivo atribuíra ao projeto. Significa dizer que a votação foi mandada às calendas.

Como se fosse pouco, Sarney, o tetrapresidente do Senado, pôs-se a defender o sigilo eterno de certos documentos (aqui, em vídeo).

Para Sarney, “a abertura total” de determinados papéis não é recomendável. A título de exemplo, mencionou os arquivos do Itamaraty:

“Documentos históricos, que fazem parte da nossa história diplomática, que tenham articulações, como a que Rio Branco teve que fazer muitas vezes, não podemos revelar esses documentos, senão vamos abrir feridas”.

A prevalecer o entendimento de Collor, de Sarney e, aparentemente, também o de Dilma, os papéis ultrassecretos serão lidos apenas por um seleto grupo de sábios.

Gente escalada para separar, de tempos em tempos, as verdades que devem ser ocultadas e as mentiras que a bugrada deve cultivar.

Diz-se que a história se repete. No caso brasileiro, dá-se coisa diversa. Deseja-se condenar a sociedade a repetir a pré-história.

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