Governo Dilma vive “crise de torcicolo”, diz Valter Pomar

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de novo a crise

Filiado à corrente Articulação de Esquerda, do PT, historiador defende que partido trabalhe para que o governo aplique o programa de esquerda que venceu as eleições de 2014

TorcicoloNeste sábado (13), encerra-se o 5º Congresso Nacional do PT, em Salvador. Vivendo o que muitos filiados chamam da maior crise de sua história, o partido se reuniu durante três dias para decidir os rumos que deve levar. Para Valter Pomer, da corrente Articulação de Esquerda, “o PT deve trabalhar para que o governo Dilma mude sua política, aplicando o programa vitorioso nas eleições de 2014 e não o derrotado, como fazem Levy e companhia”. “Eu vejo a situação assim: acabamos de ganhar as eleições de 2014. Naquele momento desagradávamos a direita. Uma vez vitoriosa Dilma, o governo teve uma crise de torcicolo. Aí passamos a desagradar a esquerda e continuamos sem agradar a direita. Assim, a solução para o problema apontado é uma boa sessão de massagem, talvez de quiropatia, que nos faça aplicar o programa  com o qual fomos vitoriosos”. Confira a entrevista com o historiador, feita por email:

O que a Articulação de Esquerda espera do Congresso Nacional? Qual a tese que defende?
Nossa tese chama-se “Um partido para tempos de guerra”. Basicamente defendemos: 1) que o PT deve mudar seu comportamento, especialmente reatando laços com setores da classe trabalhadora que confiavam em nós mas que agora se distanciaram; 2) que o PT deve apostar na mobilização social; 3) que o PT deve construir uma aliança com os partidos, movimentos, setores e personalidades de esquerda que garantiram a eleição de Dilma no segundo turno de 2014; 4) que o PT deve mudar sua estratégia, recuperando as diretrizes que já foram suas, a saber: que para transformar o Brasil é preciso combinar luta social e institucional, luta cultural e organização, tendo como objetivo derrotar o grande capital, a direita e oligopólio da mídia (e não conciliar com estes setores); 5) que o  PT deve trabalhar para que o governo Dilma mude sua política, aplicando o programa vitorioso nas eleições de 2014 e não o programa derrotado, como fazem Levy e companhia.

 Como o senhor enxerga a atual situação do PT, na qual o partido desagrada tanto a direita quanto a esquerda e vive uma crise de governabilidade no Congresso? Quais as saídas?
Eu vejo a situação assim: acabamos de ganhar as eleições de 2014. Naquele momento desagradávamos a direita. Uma vez vitoriosa Dilma, o governo teve uma crise de torcicolo. Aí passamos a desagradar a esquerda e continuamos sem agradar a direita. Assim, a solução para o primeiro problema apontado por você é uma boa sessão de massagem, talvez de quiropatia, que nos faça aplicar o programa  com o qual fomos vitoriosos. Claro que este programa vitorioso no segundo turno de 2014 não tem apoio no Congresso eleito no primeiro turno de 2014. Portanto, temos que reconhecer que faremos um governo de minoria, cuja governabilidade dependerá menos do parlamento e mais do apoio social.

O senhor enxerga o momento atual como o fim de um ciclo de um governo de conciliação de classes? Acha que foi importante esse método de governo ao longo dos governos Lula e Dilma?
Não concordo com esta afirmação, porque ela supõe algo que não existe. Nunca houve conciliação de classes neste país, no que diz respeito à atitude do grande capital frente a classe trabalhadora. O que houve, na melhor das hipótese e durante um curto período (2007-2010), foi que o grande capital tolerou a presença do PT no governo, tolerância que conteve parcialmente as operações da oposição de direita e do oligopólio da mídia. Mas desde 2010 o grande capital vem mudando de atitude, adotando uma atitude cada vez mais intolerante e agora há uma tempestade perfeita contra nós. Infelizmente, parcela importante do PT confundiu sua atitude conciliatória para com a direita, com a atitude do grande capital para conosco, vendo amigos onde havia interesses contraditórios e agora está com dificuldade de sair da armadilha em que entrou.

 E quanto ao sistema de coalizão presidencialista? O senhor defende o fim da aliança com o PMDB? Caso seja desfeita a aliança, o que fazer para garantir governabilidade? O senhor concorda com a ideia de que o PT tem de formar uma frente de esquerda, que una movimentos sociais e outros partidos? Como funcionaria essa frente?
A aliança com o PMDB já acabou. O que existe é uma chantagem da maioria do PMDB contra o PT.  O PT está sendo empurrado a adotar medidas que vão desgastando o Partido frente a maioria da sociedade brasileira. O ônus fica com o PT, os efeitos sociais negativos ficam com a base trabalhadora que é a razão de ser do PT. E se eles conseguirem concluir esta operação, do PT restará uma casca. Este é o plano da maioria do PMDB. que faremos de tudo para impedir. Este plano não é unânime na direita. O PSDB quer ser o beneficiário do desgaste do PT e portanto cria certas dificuldades para o PMDB. Uma contradição que poderíamos estar usando melhor, se não estivéssemos nos agarrando a uma mitologia, a de que existe um governo de coalizão, a de que o PMDB ainda é aliado. Portanto, não se trata de escolher a ruptura, se trata de agir frente a uma situação dada. Na minha opinião, a saída passa por construir uma aliança om os setores democráticos e populares que se mobilizou no segundo turno de 2014. Uma aliança cujo objetivo central seja de médio prazo: fazer as reformas estruturais que este país precisa.

 Dilma está isolada dentro do partido? As maiores correntes, CNB e Mensagem, estão descontentes com o que tem sido feito pelo governo?
Isto deve ser perguntando para a CNB e para a Mensagem. Agora, de uma coisa estou certo: a Dilma que ganhou as eleições, aquela que bateu pesado nas toscas políticas neoliberais, esta Dilma tem um imenso apoio no PT.

Em que medida o que é decidido dentro do partido influencia a política do governo?  Existe esse diálogo entre a direção do partido e o governo? E entre a direção do partido e as suas bases? 
O governo não ouve o Partido antes de tomar decisões, nem leva em adequada conta a opinião do Partido. A suposição parece ser a de que o Partido apoiará sempre, mesmo contra a sua vontade. E tem sido assim, até agora. O problema é que isto está sendo ruim para a classe trabalhadora, para o Partido e também para o governo. No caso de Joaquim Levy, se dependesse do Partido ele nem ministro seria. Quanto à relação entre a direção do PT e as bases do Partido, posso te dizer que já foi muito melhor antes do que ultimamente.

O PT precisaria renovar as lideranças do partido? Como fazer isso? O senhor defende o fim do PED? 
O problema principal do PT não são as lideranças, mas a linha política. Exemplo: Lula é a mais importante liderança do Partido. Mas ele precisa defender uma linha política globalmente distinta da que atualmente defende. Noutra proporção, vale o mesmo para a direção nacional. Claro que não concordo com a atual direção nem com o atual presidente nacional do PT. Quero eleger outra direção para o PT. Mas não quero apenas nem principalmente mudar pessoas, quero mudar a política atualmente adotada pelo Partido. Quanto ao PED, tem que acabar: hoje converteu-se num veículo para introduzir, dentro do PT, muito daquilo que criticamos nos processos eleitorais tradicionais. Parece democrático mas não é: substitui o debate pela arregimentação de filiados. Quem tem dinheiro para pagar a cotização dos filiados, leva vantagem. Fomos contra o PED quando ele foi criado, participamos de todos os PED realizados e hoje podemos dizer com mais segurança ainda: temos que voltar a eleger nossas direções através do método que adotávamos nos anos 80 e 90: nos encontros partidários.

O que o senhor achou da decisão de acabar com o financiamento empresarial? É uma medida importante?
A decisão adotada pelo diretório nacional do PT vai no sentido correto, mas é insuficiente. Não basta decidir que o Partido não vai receber dinheiro de empresários. É preciso que as candidaturas do PT também não recebam.

O senhor acha que está ocorrendo uma ascensão da direita e extrema-direita? O que o PT pode fazer para vencê-la?
Sim, há uma contraofensiva de direita e há uma extrema-direita muito ativa. Exemplo disto é o que está acontecendo no Congresso Nacional. A PL 4330 ameaça a CLT, o distritão acabaria com a proporcionalidade, manipulam a Lava Jato para afetar a Petrobrás, defendem a redução da maioridade penal porque acham que questão social é caso de polícia. Querem fazer o país voltar 100 anos para trás. Para vencer isto, é preciso mobilizar a sociedade. Mas para isto é preciso, além do que eu já disse antes, reconhecer e dizer a verdade para as pessoas. E uma das verdades é que aqui chegamos não apenas pelos acertos da direita, mas pelos nossos erros.

A regulamentação da mídia seria importante para o PT nesse momento de crise de popularidade? Por que o governo não age nesse sentido?
A democratização da comunicação e quebrar o oligopólio da mídia não é importante para o PT, é importante para a democracia, é importante para a sociedade brasileira. O que os conservadores não querem fazer aqui é aquilo que foi feito em países capitalistas europeus quando neles prevaleciam as chamadas políticas de bem-estar social. Porque desde 2003 nossos governos não agiram neste sentido? Porque prevaleceu até agora outra orientação, a de conciliar com o oligopólio da mídia. E porque prevaleceu? Por vários motivos, entre os quais um muito simples: parte do governo está mesmerizada pelo discurso conservador, segundo o qual liberdade de expressão é igual a total liberdade das empresas privadas de comunicação, mesmo sendo elas financiadas por dinheiro público e beneficiárias de concessão pública.

 O senhor enxerga o segundo mandato de Dilma como uma continuidade dos governos Lula e do primeiro mandato de Dilma? Ou houve uma guinada à direita? Claro que é uma continuidade e claro que houve uma inflexão à direita. As duas coisas são verdadeiras. Aliás, é bom lembrar que também houve ajuste recessivo em 2003 e em 2011. Ajustes também errados, aliás. O problema é que fazer isto hoje é suicídio, pois como as eleições de 2014 demonstraram, não temos gordura para queimar. Além de suicídio, não vai dar certo, porque a situação econômica internacional e a atitude do grande capital no Brasil se modificaram e os mesmos remédios não vão produzir o mesmo efeito.

Na campanha de 2014, o PT entendeu que precisava radicalizar, polarizar o debate, e defender as bandeiras de esquerda para vencer. Deu certo. Uma vez eleita, Dilma passou a aplicar o programa de governo do maior adversário político, o PSDB. Por que o governo deu para trás? Era realmente necessário? O senhor ficou surpreendido com o que aconteceu?
Não era necessário e não fiquei surpreendido. O que aconteceu é algo muito simples: para enfrentar os desafios atuais, era preciso adotar uma política muito firme contra o grande capital, contra a direita e contra o oligopólio da mídia. Mas esta atitude muito dura supunha outra estratégia, diferente daquela defendida por Dilma e amplos setores do PT. Como eles não mudaram de opinião, ganharam a eleição falando para a esquerda e em seguida tiveram torcicolo. insistiram na estratégia errada, achando que ia dar os mesmos resultados que deu noutros momentos. Como a situação é outra, não está dando os mesmos resultados. O que nos coloca diante do desafio de mudar de estratégia, numa situação muito pior do que em 2003 e do que em outubro de 2014.

O senhor acha que o PT ainda é capaz de responder às demandas da esquerda? De dar os rumos da esquerda no Brasil?
Sim. Até porque se o PT não se revelar capaz disto, sofreremos uma derrota imensa, que vai afetar toda a esquerda, vai piorar as condições de vida da classe trabalhadora e vai fazer o Brasil voltar a ter um papel secundário no cenário internacional. Por isto, não se trata do que eu acho ou deixo de achar, mas do que a situação histórica exige. A alternativa é perder uma ou duas gerações.

Fonte.: Brasileiros.com.br

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