“O governo Temer é a síntese do que pensa o Eduardo Cunha”, afirma Dilma

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Presidente afastada, em entrevista à TV Brasil, admite ‘consulta popular’ caso o Senado não aprove o impeachment

"O governo Temer é a síntese do que pensa o Eduardo Cunha", afirma Dilma Reprodução/TV Brasil

A presidente afastada Dilma Rousseff voltou a defender seu mandato e a chamar o processo de impeachment, que corre no Senado, de “golpe”. Em entrevista ao jornalista Luis Nassif, veiculada pela TV Brasil na noite desta quinta-feira, ela também não poupou críticas ao presidente afastado da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e ao presidente interino Michel Temer (PMDB). O senador Aécio Neves (PSDB-MG), seu adversário nas eleições presidenciais de 2014, também foi citado.

— O governo Temer é a síntese do que pensa o Eduardo Cunha. O governo Temer expressa claramente a pauta do Eduardo Cunha. Eu acho que a pauta é do Cunha e que ele hegemoniza o grupo que constitui o governo Temer — afirmou Dilma.

Em sua fala, a presidente afastada também fez uma defesa da democracia, alegando não pensar apenas em seu mandato, mas também no futuro do país. Ela rechaçou propostas de introdução do parlamentarismo no Brasil e afirmou a necessidade de uma reforma política, que passe pela consulta popular.

— Acho gravíssimo que os golpistas comecem a falar em semi-parlamentarismo, porque o centro foi para a direita e eles querem mudar o sistema. Nós temos de criar as condições pela reforma política para que isso não ocorra. E acho que em qualquer hipótese, a consulta popular é o melhor meio de lavar e enxaguar essa lambança que está sendo o governo Temer.

Dilma admitiu uma “consulta popular” caso o Senado não aprove o impeachment e ela reassuma a presidência da República.

 — Que se recorra à população para ela dizer… pode ser um plebiscito, eu não vou dar o menu total, mas essa é uma coisa que está sendo muito discutida — afirmou Dilma, sem explicar a que se referia. Muitos políticos, inclusive da base de apoio da petista, defendem que, caso ela volte ao cargo, convoque novas eleições para presidente. Dilma nunca havia se manifestado sobre essa hipótese.

Sobre a postura de Aécio e do PSBD, Dilma falou que se tratou de uma reação atípica, que ajudou a criar a instabilidade política no país.

— A reação do meu adversário, que foi derrotado nas eleições em 2014, foi bastante atípica. Ninguém nunca pediu recontagem de votos. Ele pediu. Ninguém pediu para fazer auditoria nas urnas eletrônicas. Depois, eu tinha de ser diplomada no início de dezembro e eles entram no TSE alegando que minha campanha tinha problemas. O TSE aprova as contas e sou diplomada — disse. — Conosco, a política do quanto pior melhor foi muito forte. Foi de uma irresponsabilidade absoluta do PSDB, que achava que instabilizando o meu governo criaria ambiente para o impeachment. Só que o impeachment cai no colo do PMDB.

Questionada sobre a postura do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dentro da articulação do PSDB, Dilma foi enfática:

— Eu acho que no Brasil nós tínhamos de ter um pouco das práticas que existem nos Estados Unidos. Que o ex-presidente jamais falará do presidente em exercício.

Impeachment

Em sua defesa diante do processo de impeachment, a presidente afastada argumentou que “não é possível forçar” a Constituição para que se torne “crime aquilo que não é”.

— O Fernando Henrique fez mais decretos do que eu. E falo isso não só pelo meu mandato, mas pelas consequências que isso tem sobre a democracia. Isso afeta todos os poderes em todos os níveis. A ordem jurídica vai pro vinagre. Eu reivindico voltar porque eu não cometi crime, mas acredito que temos que discutir os momentos seguintes.

Ela também defendeu uma mudança nas leis para evitar que situação semelhante se repita no futuro.

— Acredito que a partir do meu caso vão ter que mudar a legislação. Não é possível isso que está acontecendo no Brasil. Um governo provisório, interino, que muda toda a estrutura, não tem legitimidade para fazer esta mudança. Toma atitudes como se tivesse sido eleito pelo voto popular — argumentou.

Cunha, o grande rival

As articulações na Câmara conduzidas por Cunha foram citadas pela presidente afastada como empecilhos para o seu governo. Ela exemplifica com a dificuldade em aprovar o marco regulatório do setor portuário e também o Marco Civil da internet.

— E aí começa algo que eu reputo ter sido extremamente grave: já no final do meu governo você via movimentação muito atípica para a direita dentro do centro. Começa bem lenta, mas muito clara.

Dilma afirma que Cunha foi o responsável por toda a articulação contra o seu governo na Casa.

— É um movimento que vinha vindo enquanto ele era líder (Eduardo Cunha) do PMDB. Ele ocupa uma liderança da direita dentro do centro. De uma parte expressiva do PMDB e dos partidos que habitam o centro. Este processo culmina com a eleição dele. Nós tivemos uma derrota ali. O grande problema de compor com o Cunha é bem simples: ele tem pauta própria.

O aumento da investigação sobre Cunha e sua tentativa para se livrar da Operação Lava-Jato são citados por Dilma como as causas para a decisão de abertura do processo de impeachment na Câmara.

—  A reação (de Eduardo Cunha) então é: ou vocês me dão os três votos ou eu aceito a questão que o Miguel Reale Jr. e a Janaina Paschoal apresentaram e entro com o pedido de impeachment. Ele faz isso de uma forma pública.

Dilma também comparou a diferença entre as lideranças do PMDB no Senado e na Câmara:

—  No PMDB do Senado, o grupo é qualitativamente diferente. Não tem a mesma pauta, tem uma pauta mais progressista e nível de discussão de outro patamar. Lá na Câmara, e isso fica claro até no processo de aceitação do impeachment, não tem negociação possível com certos tipos de prática.

Relações diplomáticas afetadas

Dilma também criticou a postura do ministro das Relações Exteriores, José Serra. Ela chamou sua atuação de “preocupante” e ressaltou os avanços conquistados durante sua administração.

— Fomos capazes de refazer nossa realação com a América Latina, Caribe e África. Agora, ter uma visão de fechar embaixada é ter visão absolutamente minúscula da política externa — disse. — Há discursos de que o Brics não tem a importância que tivera, e isso é de uma cegueira geopolítica fantástica. O Brasil tem seu valor também se ocupar os quase 500 milhões de consumidores do lado de cá do oceano. Ele tem de aparecer como tal e isso se faz tecendo relações de amizade, que não precisam ser com parceiros ideológicos — comentou.

Gastos com cabeleireiro e teleprompter 

Em um momento mais descontraído da entrevista, Dilma rebateu a divulgação de suas despesas com cabeleireiro. Ela justificou que paga e tem todos os comprovantes dos serviços prestados. E que também não possui um aparelho de teleprompter para uso pessoal.

Se pensam que vão me calar pelo meu cabelo, eles não vão. Eu tenho comprovante dele (do cabeleireiro Celso Kamura) e da minha outra cabeleireira. E também disseram que pagaram para mim um teleprompter. Você já viu alguém ter um teleprompter para uso pessoal? Você imagina: eu pego o teleprompter e levo para o meu quarto — ironizou.

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* Com informações de Estadão Conteúdo

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