Trump mantém relação distante com Temer após 100 dias de governo

Após 100 dias recém-completados à frente da Casa Branca, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mantém relação distante com o par brasileiro, Michel Temer.

Enquanto o peemedebista ainda aguarda um convite formal para um encontro com o presidente americano, Trump já recebeu pessoalmente líderes de vizinhos sul-americanos como Peru e Argentina – parceiros econômicos bem menos importantes para os EUA do que o Brasil, que ocupa o posto de principal mercado do país na América do Sul.

Ainda assim, Trump telefonou para outros líderes sul-americanos como Juan Manuel Santos, da Colômbia, e de todos os demais membros do Brics (bloco econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), antes de seu único telefonema para Temer, em 18 de março.

Presidentes brasileiros anteriores, como Fernando Henrique Cardoso e Luís Inácio Lula da Silva, se encontraram pessoalmente com seus respectivos pares nos EUA durante os primeiros 100 dias de mandato de George W. Bush e Barack Obama, respectivamente, na Casa Branca.

Dilma Rousseff, por sua vez, recebeu telefonemas pessoais de Obama nos dias seguintes às suas duas vitórias em eleições.

Fernando Collor de Mello teve atenção semelhante do então presidente americano, George Bush. Apenas 25 dias após tomar posse em Brasília, em janeiro de 1990, Collor foi elogiado como alguém que “modernizaria” a política brasileira em encontro na Casa Branca.

À BBC Brasil, o palácio do Planalto disse, em nota, que “o presidente Michel Temer mantém diálogo construtivo com o presidente Donald Trump”.

A reportagem também conversou com analistas e fontes ligadas à Casa Branca sobre a discreta relação entre Temer e Trump.

Os entrevistados sugerem algumas possíveis causas que explicariam o distanciamento atual nas relações entre os dois países – ou mesmo a falta de interesse em uma aproximação maior: as acusações de corrupção de políticos ligados ao governo Temer; a lenta recuperação da economia brasileira; a curta duração do mandato de Michel Temer; seus baixos índices de popularidade; o foco do governo Trump sobre problemas internos, como cortes de impostos e programa de saúde, e sobre questões geopolíticas que envolvem os EUA, como o bombardeio à Síria e a ameaça de um ataque nuclear pela Coreia do Norte; e, finalmente, a própria imprevisibilidade que marca a gestão Donald Trump.

Histórico

O governo brasileiro não quis comentar a diferença de tratamento do país aos vizinhos sul-americanos e aos presidentes que antecederam Michel Temer.

“Os dois (Temer e Trump) compartilham o objetivo de fazer crescer as respectivas economias e gerar empregos”, diz a nota enviada pela presidência da República.

“As relações encontram-se em um momento muito bom tanto no que respeita ao relacionamento entre os dois governos quanto no que respeita ao relacionamento entre suas sociedades, empresários e acadêmicos”, afirma o governo brasileiro.

Apesar de o Brasil não ser historicamente um país prioritário na agenda internacional dos Estados Unidos, presidentes anteriores a Temer receberam mais atenção nos primeiros cem dias de líderes americanos.

Segundo registros do Arquivo Nacional dos EUA, Fernando Henrique Cardoso veio aos Estados Unidos a convite de George W. Bush em 30 de março de 2001 – 69 dias após a posse do republicano.

Na ocasião, o presidente americano disse que era uma “honra” receber FHC, que classificou como “um bom homem”.

Já Barack Obama se reuniu pessoalmente com Lula 53 dias depois de ter sido eleito presidente dos Estados Unidos, em 14 de março de 2009. Dias depois, em um encontro com o petista em uma reunião do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo), Obama disse a interlocutores que “adora” Lula (“I love this guy”) e classificou o petista como “o político mais popular da Terra”.

Com Dilma, que assumiu quando Obama estava na segunda metade de seu primeiro mandato, o relacionamento foi cordial, mas azedou, em setembro de 2013, por causa das revelações de que serviços de inteligência dos EUA teriam realizado escutas de conversas telefônicas da presidente.

Desde a posse, em 20 de janeiro, Temer conversou com Trump apenas uma vez, e por telefone. Na ocasião, segundo o departamento de comunicação da Casa Branca, o presidente americano “enfatizou a importância da relação bilateral com o Brasil, um de nossos parceiros-chave no hemisfério sul”.

Trump não tocou no assunto em sua famosa conta no Twitter, que acabou se tornando seu principal canal pessoal de comunicação. Em inusitada inversão de papeis, Temer é que foi ao Twitter para divulgar a conversa com o americano: “Recebi hoje telefonema de @realDonaldTrump. Ele está acompanhando o nosso trabalho e me congratulou com os resultados que já alcançamos”.

Temer prosseguiu: “Fortalecemos com @realDonald Trump a manutenção de canais diretos de diálogo. Ele disse do seu interesse em uma visita nossa a Washington”.

Nem Trump, nem a Casa Branca fizeram comentários sobre o possível encontro.

Instabilidade

Para analistas e fontes no governo ouvidas pela reportagem, o aparente desinteresse do presidente americano também pode ser avaliado positivamente.

“Acho que, neste momento, qualquer país, inclusive o Brasil, deve esperar que esse governo mostre o que vai fazer em termos de política internacional”, diz Julia Sweig, pesquisadora da universidade do Texas e especialista em Brasil e América Latina.

“Eu sugeriria a Brasília que fique fora do radar até que isto seja definido”, afirma.

Sweig ressalta que a atenção de Trump está voltada para questões internas, como propostas de cortes de impostos e mudanças em programas de saúde, e na tensão geopolítica com países como a Coreia do Norte (sobre a qual Trump afirmou que paira “uma chance de conflitos de grandes proporções) e o México (alvo do polêmico projeto de construção de um muro para conter imigrantes ilegais).

O distanciamento do Brasil se agravaria com o que a pesquisadora classifica como “uma Brasília muito mais enfraquecida, por conta da contração econômica e seus escândalos de corrupção”.

“A atenção internacional está focada no colapso econômico do Brasil e na extensão e profundidade da corrupção. Não acho que uma atenção positiva do exterior virá até que haja uma recuperação não só política, mas econômica para o país”, afirma.

Para uma fonte ligada à diplomacia americana, entretanto, a corrupção no Brasil não estaria entre as principais preocupações de Donald Trump.

“Neste momento, Temer é presidente e não está sob investigações diretas. Não acho que o governo americano seria reticente em se relacionar com o Brasil por conta de insinuações ou rumores – até porque o nosso próprio presidente tem rumores e insinuações na mesma medida contra ele”, disse.

Ele se refere a acusações como as de nepotismo em relação a nomeação de parentes para cargos públicos, suspeitas de sonegação de impostos por suas empresas e supostas relações escusas com espiões russos durante a campanha eleitoral – todas negadas pelo presidente dos EUA.

“Você nunca vai eliminar a corrupção. Há corrupção em Nova York, o ex-presidente da assembleia do Estado está preso por corrupção e não é o primeiro. Há corrupção em vários Estados americanos. Mas o nível de corrupção não é tão grande a ponto de afetar a integridade do país. E é nisso que o Brasil precisa ter atenção, o nível a que se chegou com a Odebrecht é insustentável.”

Para o entrevistado, os Estados Unidos veem com bons olhos as principais reformas propostas por Temer (trabalhista e da Previdência), mas um obstáculo no caminho do presidente brasileiro seria a “questão da sua legitimidade”.

“Ele tem uma questão de legitimidade porque não foi eleito e porque é citado em investigações. Não se sabe se Temer tem autoridade moral para implantar estas reformas”, diz.

Pouco tempo

Na avaliação de Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da FGV, “este governo certamente não será lembrado por sua política externa”.

Um dos problemas seria a curta duração da gestão Temer que, se não for interrompida pelo julgamento da chapa com Dilma Rousseff pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), durará pouco mais de dois anos.

“É muito difícil articular uma relação bilateral”, diz. “É muito pouco tempo.”

Para Stuenkel, o governo brasileiro falhou em não se mobilizar para um encontro pessoal com Trump – aposta feita por Mauricio Macri, presidente da Argentina, e Pedro Pablo Kuczynski, presidente do Peru.

“O encontro é fruto muito mais da iniciativa deles do que da de Trump”, afirma o professor. “É difícil dizer quais são os ganhos específicos para um país após estas reuniões, mas acho importante se encontrar pessoalmente e criar um canal direto. Não concordo com a ideia de que ‘se não tem pauta específica, não precisa se reunir'”, diz.

“O governo brasileiro deveria ter se esforçado mais para encontrar Trump logo e avançar em temas como cooperação econômica, espacial, anticorrupção e outros vários. Mas não houve mobilização suficiente para fazer esse encontro acontecer.”

Para Stuenkel, a curta duração do mandato de Temer dificulta sua política internacional.

“É difícil sentar com o governo brasileiro e dizer, olha, nos próximos anos, fazer tal cooperação. É difícil articular uma relação bilateral porque não há tempo suficiente para isso”, diz.

A dificuldade de Temer, segundo o professor, não existiria apenas com Trump.

“Desde os meses antes do impeachment, o mundo percebe que o Brasil está em um momento de transformação, de muita incerteza, então todos estão muito cautelosos”, diz.

“Poucos governos ainda investem pesado nessa relação com o Brasil e preferem esperar o que vai acontecer em 2018”.

Fonte.: Portal Terra

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