Presidente Itamar Franco

O Presidente Itamar Franco e suas memórias políticas – que eu nunca escrevi

Itamar Franco -- altivo e rabugento na maturidade (Foto: Sérgio Lima / Folhapress)

Itamar Franco — altivo e rabugento na maturidade — além de topetudo (Foto: Sérgio Lima / Folhapress)

Amigas e amigos do blog, a doença súbita e fulminante que levou embora o ex-presidente Itamar Franco em julho de 2011 arrastou consigo um político digno, um homem público que, medidos altos e baixos, deixou um saldo muito positivo, e um senador recém-eleito (PPS-MG) que vinha fazendo, em relação ao lulalato, o que anda muito em falta faz no Congresso: uma oposição séria, firme e consistente.

De minha parte, levou planos de tentar extrair do ex-presidente, cuja genuína modéstia o afastava da ideia de escrever uma autobiografia, material para um eventual livro de memórias de sua longa carreira.

Enfrentando a máquina do regime

Embora eu tenha criticado Itamar em vários artigos quando presidente (1992-1995) e, mais ainda, em seu período posterior, como governador de Minas Gerais (1999-2003), sentia respeito por aquele prefeito de Juiz de Fora, pouco conhecido fora de sua cidade, que, em 1974, lançou-se a uma candidatura aparentemente suicida ao Senado pelo MDB.

Enfrentava a máquina estadual e a do governo militar, que empurravam o senador José Augusto, da então Arena, diversas vezes deputado estadual, que assumira em 1972 a cadeira do falecido Milton Campos, instituição conservadora mineira.

Itamar em ação como senador (PPS-MG) em 2011: oposição séria, firme e consistente (Foto: Agência Senado)

Ganhou estourado, na avalanche que levou a oposição em 1974, em plena ditadura militar, a eleger 16 dos 22 senadores cujos mandatos se renovavam. No Senado, foi um encrenqueiro que deixava a disciplina partidária sempre que sua consciência o impelia em outra direção.

Tive poucos contatos com Itamar senador. Para meu constrangimento, me chamava de “doutor”. Certa feita, me presenteou com uma separata — espécie de livreto, editado pelo Senado — com um discurso sobre desenvolvimento do país e uma dedicatória.

A mudança nas entrevistas coletivas

A despeito dos muitos reparos que lhe fiz como presidente e governador em artigos nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, para os quais colaborava enquanto trabalhava na Editora Abril, continuou me tratando com cortesia e civilidade.

Certa vez, escrevi artigo criticando a bagunça e o desrespeito que ocorriam em suas entrevistas coletivas, com jornalistas detendo-o à saída do Palácio do Planalto e enfiando microfones no rosto do presidente da República. Mostrei exemplos do que ocorria em outros países, onde presidentes só falavam a jornalistas em locais adequados, dotados de púlpito, microfone e um mínimo de cerimonial e organização.

Para minha surpresa, no mesmo dia da publicação do artigo o presidente decidiu organizar formalmente seus contatos com a imprensa, e o noticiário do dia seguinte informava ter sido o artigo o motivador da iniciativa. Algumas semanas mais tarde, é verdade, voltou-se à desorganização anterior, mas obviamente me senti lisonjeado.

Sozinho no aeroporto, carregando sua maleta

Certa vez, por acaso, presenciei uma cena eloquente sobre a simplicidade e a modéstia do ex-presidente, no aeroporto de Brasília. Ele ainda não se elegera senador por Minas. Eu iria voltar a São Paulo e me encontrava no mezanino do Aeroporto Internacional Presidente Juscelino Kubitschek quando vi que Itamar desembarcara, no piso inferior, de algum voo doméstico.

Como ex-presidente, a ele cabia direito, por lei, a seguranças, motorista e alguns assessores. Mas 0 ex-presidente surgiu sozinho, carregando a própria maleta. Fiquei observando lá de cima. Ele foi caminhando, maleta na mão, em direção a um automóvel que o esperava do lado oposto àquele em que desembarcara. Uma trajetória de várias centenas de metros. Lá foi o ex-presidente. Reconhecido por algum passageiro, parava, cumprimentava e trocava dois dedos de conversa. Assim foi indo. Andava e parava para conversar. Deu alguns autógrafos, acenou para pessoas que o saudavam. Atravessou o aeroporto inteiro, sem alarde, como mais um cidadão, até entrar num Vectra preto.

Nos meses que antecederam a sua morte, mantive contatos permanentes com José Quintiliano Fonseca, assessor do então recém-eleito senador, e estávamos programando uma longa conversa com o ex-presidente, em Brasília, quando ele subitamente adoeceu.

A morte que sobreviria em poucos dias, a 2 de julho de 2011, tirou de cena um político honrado e um oposicionista de grande peso e credibilidade, que ainda poderia prestar bons serviços ao país – e também meu projeto de convencê-lo a trabalhar com ele em suas memórias políticas.

A pedido do diretor de VEJA, Eurípedes Alcântara, escrevi o perfil do ex-presidente que segue abaixo e foi publicado na edição da revista de nº 2.225, de 13 de julho de 2011 e no qual expresso minha opinião sobre seu governo e sua figura pública. As fotos originalmente publicadas na revista impressa são apenas a principal do post, acima, e a de Itamar jovem, abaixo:

RABUGICE E VIRTUDE

Itamar Franco foi um governante exemplar. Fez o mal em público e o bem anonimamente, mesmo contra sua vontade

O topete, único, irrepetível, quase inverossímil, era a um só tempo realidade física e metáfora. Se fazia as delícias dos caricaturistas, servia-lhe como símbolo de altivez, refugiada no recesso da modéstia mineira de Itamar Augusto Cautiero Franco, ex-presidente da República (1992-1994) e senador (PPS-MG), morto no dia 2, em São Paulo, aos 81 anos, por efeitos colaterais de uma leucemia.

O topete o acompanharia, nos dois sentidos, até o fim: em seu corpo, cremado numa solenidade em Contagem (MG), e em sua atitude – por desejo expresso de Itamar, a família recusou as honras de chefe de estado, um velório no Palácio do Planalto ou no Senado e até transporte oficial, excetuado o avião da FAB que o levou para o velório em Juiz de Fora, sua cidade de adoção, e em Belo Horizonte.

O primado da vida adulta ensina que a morte não santifica ninguém. Itamar não escapa à regra. Foi, durante boa parte da carreira, um político de horizontes modestos, raspando no provincianismo. Como tantos políticos banais, mudou várias vezes de partido.

Itamar, o vice, na posse com Collor: o aventureiro procurava um carimbo de honradez (Foto: Agência Estado)

Em 1989, permitiu que um aventureiro, Fernando Collor, recorresse a sua reputação de integridade para conferir carimbo de honradez a sua ambição presidencial. Teve falhas, cometeu erros e, depois de deixar a Presidência, revelou-se um embaixador omisso e problemático em três diferentes postos além de, mais tarde, um governador de Minas incômodo e trapalhão.

O poder, porém, aqui e ali faz emergir o condão de engrandecer homens comuns. O zero à esquerda Harry S. Truman, vice de um gigante como Franklin D. Roosevelt nos Estados Unidos, conduziu com firmeza o país à vitória final na II Guerra Mundial e teve pulso para fazer frente à URSS na Guerra Fria.

O revolucionário comunista Nelson Mandela, após 27 anos de dura, impiedosa cadeia, foi capaz de sair estendendo a mão a seus algozes para um processo de reconciliação que livrou a África do Sul de uma guerra civil, transformou-a na única democracia do continente e a ele próprio num dos grandes estadistas do século XX.

No caso de Itamar, coube-lhe a coragem e a ousadia de, com o Plano Real, lançar o Brasil no rumo certo, cravando a mais importante das estacas para o crescimento econômico com estabilidade, sem o qual nenhum país chega a parte alguma. Passando por cima de velhas convicções nacionalistas, iniciou um processo de privatizações e abertura da economia que continuaria com seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso.

A ALTIVEZ -- do jovem Itamar não se diluiu na maturidade. Ao contrário, ela se fortaleceu e ficará como seu legado ao mundo oficial e da política (Foto: Álbum de Família)

A ALTIVEZ do jovem Itamar não se diluiu na maturidade. Ao contrário, ela se fortaleceu e ficará como seu legado ao mundo oficial e da política (Foto: Álbum de Família)

Não parecia que, com o impeachment de Collor, o mineiro nascido em alto-mar e registrado pela mãe em Salvador chegaria a tanto. Durante bom tempo, governou de forma zi­gue­za­guean­te o suficiente para que se importasse o sentido de um adjetivo – “mercurial”, que em inglês significa volátil ou imprevisível – para defini-lo.

Rompeu uma tradição e nunca entrava no Planalto pela rampa principal, preferindo descer de um cansado Opala preto e ingressar por uma porta lateral. Recusou o Alvorada, continuando a morar no Palácio do Jaburu. Rabugento, reclamava com regularidade das altas de juros promovidas pelo Banco Central, como se o governo não fosse dele.

Na vida pessoal, divorciado e pai de duas filhas adultas que não viviam em Brasília, arranjava namoradas mais jovens e chegou a provocar a imprensa com uma que era imaginária. Sofreu o constrangimento de apresentar-se no Sambódromo do Rio de Janeiro ao lado de uma alpinista do mundo de celebridades que não vestia roupa íntima. Passou um mau bocado quando um sobrinho, integrante de uma delegação oficial à Colômbia, morreu de overdose de cocaína.

Começou com um ministério recheado de antigos colegas do Senado e, mais tarde, enxertado por desconhecidos não raro medíocres, de duração efêmera. Só na crucial Fazenda teve seis titulares e seis ministros interinos em 27 meses de gestão. Mas não transigia com irregularidades.

Com o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, o presidente Itamar exibe as recém-lançadas cédulas do real, em 1994: escolhere FHC para ministro da Fazenda foi gesto de temerária criatividade (Foto: extra.globo.com)

Afastou um grande amigo, o chefe da Casa Civil Henrique Har­grea­ves, quando se suspeitou de seu envolvimento na roubalheira detectada pela “CPI dos Anões do Orçamento”. Três meses depois, esclarecida a correção de Hargreaves, renomeou-o para o posto. Embora o governo fosse administrativamente errático, em pouco tempo Itamar restaurou a dignidade da Presidência após a podridão ética do período Collor.

Mais que tudo, teve a grandeza de colocar numa posição-chave, que se mostraria depois capaz de mudar radicalmente os rumos do país, um político e intelectual em quem confiava, mas de cuja visão do mundo não compartilhava – Fernando Henrique Cardoso, instalado, num gesto de temerária criatividade, no comando da economia.

Itamar romperia com o ministro que o Plano Real elegeu e reelegeu como presidente, convencido de que FHC conspirou para que o PMDB não lançasse candidato a presidente em 1998, quando pensava concorrer. Manteve rancor e distância do amigo por anos. No final da vida, fora-se o rancor, desmentindo o dito de Tancredo Neves segundo o qual o guardava em geladeira.

Lula e o PT não aceitaram sua convocação para integrar, pós-Collor, um governo de salvação nacional. Mais tarde Lula o chamaria de “filho da p…”. Isso não impediu Itamar de apoiá-lo para presidente em 2002. Teve, porém, a dignidade de se afastar da senda moral trilhada pelo líder populista e seus acólitos e foi para a oposição, pela qual se elegeu pela terceira vez senador por Minas, em 2010.

Era um homem de bem e probo, num país em que esse pré-requisito se tornou, na vida política, uma virtude.

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